CRÍTICA “AS MALDITAS” | CRÍTICA OFICIAL DO CRÍTICO DO ROSÁRIO EM CENA 17 ANOS ÂNTONIO CARLOS BRUNET (DUNGA)

Cumpro mais uma etapa do XVII Festival Internacional de Teatro Rosário em Cena, ou seja, a confecção de críticas dos espetáculos apresentados.
Procuro tecer comentários, da maneira mais coloquial possível, até mesmo porque minha erudição vai somente até a página 10. É um registro, por escrito, de sensações dos espetáculos emanadas, em uma apresentação específica, sujeita às mais diversas circunstâncias.
Sou passional. Não sei se isso é defeito ou virtude. Por isso, como ator e diretor, colega de profissão, muitas vezes pareço exagerado em algumas afirmações, tanto elogiosas como críticas. Porém, sou absolutamente franco. Não procuro tapar o sol com a peneira, de ninguém. Amigo ou não. Conhecido ou não. E, espero, assim, estar contribuindo para a continuidade e a qualificação cada vez maior das obras comentadas. São comentários, exatamente, não sofismas ‘imexíveis’ e isentos de quaisquer deslizes. Não são palavras em chumbo derretido. São efêmeras, graças a Deus, absolutamente coerentes com o fenômeno teatral.
Até o próximo. Se vocês ainda me aturarem.
Beijos.
Antonio Carlos Brunet, Dunga
Outubro/novembro de 2016.

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IRMÃS ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA

Leandro Silva & Anderson Gonçalves Montagem Independente, grupo de Porto Alegre, RS, apresentou no XVII Festival Internacional de Teatro Rosário em Cena, o espetáculo AS MALDITAS, texto e direção de Leandro Silva. Curiosamente, os dois componentes do grupo são mais conhecidos por seus trabalhos com o teatro de bonecos, tanto Anderson quanto Leandro, este, mamulengueiro do Piauí, radicado em Porto Alegre.
A ação da peça, em clima de tragicomédia, mostra-nos o cotidiano de duas irmãs, que dividem o mesmo teto, tendo a mais velha, sob sua responsabilidade, a função de cuidar da irmã mais nova, presa a uma cadeira de rodas, vítima com seqüelas de um AVC. A direção optou pelo distanciamento, com as duas irmãs interpretadas por dois homens, em busca de uma coerência e verdade cênica conseguidas, de maneira geral. Prefiro não falar em realismo, pelo fato exposto anteriormente, o que já me distancia do real que a ação possa demandar. Há elementos realistas, outros nem tanto, evidenciando uma confusa rede de indefinições. Isso, provavelmente, deve-se ao fato de ser o diretor também ator full-time do espetáculo, o que acarreta, ainda, uma evidente desigualdade no registro de interpretação dos dois atores. Anderson Gonçalves, preocupado em não transformar sua personagem, Rosa, numa Drag Queen caricata, registra sua emissão vocal numa tonalidade média/baixa, que nos leva, em determinados momentos a uma impostação monocórdia de radionovela. Leandro Silva, por sua vez, defende sua Margarida, de forma muitas vezes risível, causada, talvez, pelo seu carregado sotaque nordestino, fato que, a curto prazo, é de difícil solução. Não sendo, porém, impossível. Há, contudo, com esta disparidade, um resultado muito interessante, pela oposição de ritmos estabelecida, que sustenta e mantém o interesse contínuo pelo desenrolar da ação. Tudo torna-se verossímil, pela coerente ‘fé cênica’ incutida ao trabalho, pelos atores.

AS MALDITAS é um espetáculo, embora seus percalços, polpudo, de onde se extrai bastante pano para manga. Há – ponto para a direção – um claro encaminhamento evolutivo da intensidade dramática, com um gráfico crescente das ações, até o clímax. Embora o texto tenha um quê de previsível, o envolvimento dos atores consegue torná-lo interessante e até surpreendente. Em cena, a relação sado-masoquista, entre as duas irmãs, vai tomando contornos trágicos, sublinhando a mútua dependência, que as envolve, numa atmosfera de amor e ódio sem solução aparente. Creio haver necessidade de momentos de um maior relaxamento, onde a intimidade e o afeto fraternais possam ser mais evidentes, em contraposição à tensão gerada pelo conflito exposto. Preciso ver que, em algum lugar do passado, ou do presente, essas duas mulheres foram e/ou agiram como verdadeiras irmãs, estreitando o vínculo familiar e a intimidade entre as duas. O demais, são pequenos ajustes pontuais, que se fazem necessários, perfeitamente discutidos e debatidos pelos avaliadores e que, se azeitados, farão com que o espetáculo flua com mais facilidade.

AS MALDITAS, portanto, com suas pitadas de AS CRIADAS, de Jean Genet e do filme O QUE TERÁ ACONTECIDO A BABY JANE?, do cineasta americano Robert Aldrich, é um espetáculo bastante acessível e de comunicabilidade indiscutível, bastante honesto na condução de uma temática tão complexa e de aparente facilidade.

Grupo – Leandro Silva & Anderson Gonçalves Montagem Independente – Porto Alegre/RS; Espetáculo – AS MALDITAS; Autor – Saulo Queiroz; Cenografia – Leandro Silva & Anderson Gonçalves Montagem Independente; Iluminação – José Renato ; Sonoplastia – Lizandra Ayello; Figurino – Lorena Sanchez; Maquiagem – Viviane Marmitt; Elenco – Leandro Silva e Anderson Gonçalves; Direção – Leandro Silva.

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