Diário de Bordo: Etapa 1 da Montagem de Wonderland Ave. [Equipe Leandro Silva]

IMG_20200130_164152

Diário de Bordo – Etapa 1

Período: Novembro de 2019 a Janeiro de 2020.

Passado o primeiro calor do entusiasmo pela seleção para a quarta edição do projeto TRANSIT, a equipe do diretor Leandro Silva deu início imediato aos trabalhos. Essa primeira etapa, que compreendeu os meses de novembro/2019, dezembro/2019 e janeiro/2020, teve como principal enfoque a apropriação pela equipe dos detalhes do projeto, aprofundar os conceitos operatórios do trabalho, estabelecer checklists de desafios e encaminhá-los.

De pronto, nesse período, a equipe realizou 03 dos 30 ensaios previstos no Instituto Goethe. Esses três primeiros ensaios foram voltados para um processo de reconhecimento do espaço/ palco, para uma leitura do texto dentro deste e finalizou, no dia 30 de janeiro/20, com o primeiro exercício de operação de vídeo em tempo real, viabilizado através do software ISADORA [VER NOTA 1], em fase de apropriação pelo videomaker Billy Valdez (Coletivo Catarse).

Primeiros passos…

O diretor Leandro Silva reuni-se com o elenco, Sílvia Serrano e Marco Machessano, para leituras e estudos do texto “Wonderland Ave.”, de Sibylle Berg, com o objetivo principal de entender melhor as cenas, os contextos e já pensar a transição para o palco. Também foi feito um levantamento de necessidades de preparação corporal e vocal do elenco, que foi assumido, nesta primeira etapa, por José Renato Lopes, que também assina a iluminação do espetáculo. O trio promove encontros para exercícios e preparação no espaço da Dalmeida Conteúdo Cultural (Bairro Menino Deus, POA) e, neste primeiro momento, estabelecido os objetivos da preparação baseada nas necessidades do elenco, não recebeu nenhuma interferência do diretor.

WhatsApp Image 2020-01-23 at 13.16.21

Outro enfoque dado neste período foi pensar, listar e encaminhar os desafios para resolver impasses técnicos e a integração dos processos de captação, projeção e integração dos recursos audiovisuais propostos no espetáculo. Aqui entra em cena o parceiro Billy Valdez, membro do Coletivo Catarse de Comunicação, que tem se dedicado não só a apresentar, mas também buscar junto com o diretor as possibilidades tecnológicas de integração dos diversos aspectos do projeto de encenação.

A proposta apresentada por Leandro Silva para a encenação e montagem do texto da dramaturga alemã Sibylle Berg reporta-se ao universo cyberpunk, com clima pessimista e sombrio. O diretor busca captar e materializar na sua montagem um alerta presente na peça dos perigos da imbricação cada vez mais encarnada das tecnologias  – especialmente as Inteligências Artificiais (I.A.) – em nossas vidas pessoais, sociais e políticas. Delegar as esferas das nossas vidas às máquinas, implicará em quanto de liberdade num futuro próximo? É uma das questões levantadas.

Ideias operatórias

Para a montagem, Leandro Silva propôs, com desenhos feitos em estreia colaboração com a designer Sílvia Serrano, que estreia como atriz no espetáculo, um verdadeiro “dispositivo cênico”, onde os elementos que o compõe – cenografia, figurinos, objetos de cena, recursos sonoros e projeções – não são meros recursos, mas constituem a própria tessitura da encenação. As tecnologias são colocadas na roda como parte do jogo e o processo de captação de som e imagem e seu processo de edição – realizado nessa primeira etapa com o já consagrado programa ISADORA – serão realizados à vista do público.

Enrico Pitozzi (2011) [VER NOTA 2] vai chamar esse tipo de “estrutura” de DISPOSITIVO COMPOSITIVO DA CENA TECNOLOGICAMENTE INTEGRADA e apresenta como característica, segundo ele:

a) Não é um signo representativo de algo;

b) Não apresenta a si mesmo;

c) Não é apenas um meio cenográfico.

E finaliza colocando que este dispositivo é, acima de tudo, uma “LÓGICA ESTÉTICA”, cuja construção e modos de funcionamento, jogo e interação precisam ser bem apropriados por todos que dele participam (aqui incluindo atores, técnicos e espectadores).

Baseado na sua experiência com o Teatro de Animação, campo para onde direciona seu trabalho há 16 anos, Leandro Silva propõe a experiência de um “Teatro de Avatar”, onde a atriz é levada ao cenário e ao espaço de encenação – aqui entendido como um espaço imersivo e ficcional – através da captação de imagem e som em tempo real. Já o ator, é entendido como um “biocibernético”, tendo sua sensibilidade e seu espaço de atuação mediado, limitado, medido e potencializado pelos dispositivos tecnológicos do espetáculo.

Ao juntar de forma sobreposta estas duas camadas – uma real, de operação e criação em tempo real e a outra ficcional, onde a peça acontece sob efeito da primeira camada – o diretor propõe o próprio espetáculo como uma metáfora da problemática e da abordagem proposta por Sibylle Berg em sua inquietante obra, da tecnologia como interventora, mediadora da ação.

O lugar do espetáculo é, ainda segundo o diretor e inspirado nas reflexões proposta por Enrico Pitozzi sobre poéticas tecnológicas, uma intersecção entre corporeidade, os processos de visualscape e soundscape. Com relação à corporeidade, esta por sua vez se desdobra, no seu contato com as tecnologias, em uma nova intersecção, entre o corpo físico (vivo, orgânico e hard) e o corpo sintético (digital, editável e soft).

O que dá vida à cena é, especialmente, as oportunidades de transformações da imagem e do sensorial a partir do contato dessas diversas dimensões, contato que se dá ora por integração, ora por fricção e atrito, ora por ampliação (Isaacsson, 2012). Aqui, TRANSFORMAR se dá no sentido proposto por Pitozzi, para quem isso significa “enxertar no dispositivo cênico um movimento de alteração contínua, tanto dos componentes – corporeidade, visualscape e soundscape – quanto de suas relações. É a atenção apropriadamente posta sobre os processos de transformação que conduz a um outro modo de perceber. A ação se dissolve e parece deixar espaço a uma metamoforse; o espaço da ação aparece como uma paisagem transformada sem interrupção através de diversas sequências de aparição/ desaparição de objetos e presenças” (PITOZZI, 2011, p. 109).

Ideias Operatorias em Interssecção_Wonderland Ave

O efeito de transformação da imagem e em conexão com esta do som e dos objetos de cena, num jogo constante de aparecer/desaparecer se relaciona muito diretamente com as técnicas de animação experimentadas no campo do Teatro de Animação e as tecnologias estabelecem para este campo novas fronteiras e sutilezas para este jogo. Assim, as escolhas propostas para o espetáculo não se distanciam do acúmulo do diretor enquanto artista bonequeiro, que viveu experiência significativa de estar em cena animando e dando vida a bonecos e outros objetos teatrais.

Entre as diversas possibilidades tecnológicas digitais disponíveis, a equipe se debruça especialmente sobre o uso do ISADORA, do Auto-Tune, do Eyesweb, fora a criação de efeitos visuais e sonoros que serão enxertados na imagem captada em tempo real.

Contextos de produção

Desde o princípio do trabalho, a equipe, representada pelo diretor Leandro Silva, mantém estreita relação com o Instituto Goethe, especialmente com o setor de Programação Cultural da instituição, conduzido por Anne Fahlke, e com os demais parceiros do projeto TRANSIT (SESC e provocadores críticos artísticos do site AGORA). Os diálogos giram em torno de estabelecer agendas de ensaios e encontros, bem como da construção da programação de estreias – que acontece dentro do 15º Festival Palco Giratório do SESC Porto Alegre – e das temporadas no Instituto Goethe.

O projeto TRANSIT inclui na premiação um apoio na ordem de R$ 15.000,00 para a montagem. O diretor Leandro Silva estabeleceu junto à sua equipe um processo de orçamentação colaborativa e que tem como foco manter e valorizar o trabalho da equipe, razão pela qual escolheu mantê-la pequena e concentrada, compartilhando com esta a produção do trabalho.

SOBRE A MONTAGEM “WONDERLAND AVE.”, DIREÇÃO LEANDRO SILVA

“As vezes máquinas superiores nos perguntam: porque vocês os torturam desta maneira antes de lhes conceder o estado que eles merecem? E nós respondemos: porque nós podemos” (Sibylle Berg).

Na montagem proposta pelo diretor Leandro Silva e sua equipe para Wonderland Ave. da dramaturga alemã Sibylle Berg, a visão de um mundo distópico, pós-apocalípsito cibernético e governo pela presença onisciente das Inteligências Artificiais (I.A.). O espetáculo é um dispositivo cênico onde poéticas tecnológicas, atriz avatar e ator biocibernético nos inquietam sobre a imbricação cada vez mais profunda das tecnologias nas nossas carnes, vidas sociais e democracias. Uma “matrix”, onde corporeidades físicas e digitais se encontram e se confundem. Quanto de liberdade ainda nos restará em um futuro próximo, quando as inteligências artificiais determinarem todas as áreas de nossas vidas?

O espetáculo integra a 4ª edição do projeto TRANSIT, idealizado pelo Goethe Institut e realizado em parceria com o SESC e o site AGORA Crítica Teatral, que selecionou dois diretores (Leandro Silva e Julia Rodrigues) para a montagem do mesmo texto de Sibylle Berg.

FICHA TÉCNICA

Direção: Leandro Silva

Elenco: Silvia Serrano e Marco Marchessano

Iluminação: José Renato Lopes

Preparação de Elenco: José Renato Lopes

Projeto Visual: Leandro Silva e Silvia Serrano

Cenografia: Silvia Serrano

Operação de Vídeo, Som e Edição em Tempo Real: Billy Valdez (Coletivo Catarse)

Maquiagem: Julia Santos

Fotografia: Leandro Artur Anton

Provocadores Críticos Artísticos: Michele Rolim e Henrique Seidel (AGORA Crítica Teatral)

ESTREIA:

Data: 21 e 22 de maio de 2020, quinta e sexta.

Local: Instituto Goethe, Porto Alegre, RS.

Horário: 20h

REFERENCIAS:

CINTRA, Wagner. Considerações acerca do Teatro Visual e da Dramaturgia da Visualidade. In: MÓIN-MOIN: Revista de Estudos sobre Teatro de Formas Animadas. Jaraguá do Sul: SCAR/ UDESC, ano 10, v. 12, p. 95-109, 2014.

PEREIRA, Antonia (org.), ISAACSSON, Marta, TORRES, Walter Lima. Cena, Corpo e dramaturgia: entre tradição e contemporaneidade. Rio de Janeiro: Pão e Rosas, 2012.

PITOZZI, Enrico. LÓGICA DA COMPOSIÇÃO: notas sobre a cena tecnológica. in: Moringa: Artes do Espetáculo. João Pessoa, Vol. 2, n. 1, p. 91-112, jan./jun de 2011.

SILVA, LEANDRO ALVES DA. TEATRO DE ANIMAÇÃO E TECNOLOGIAS: Um olhar a partir da Interface sobre o trabalho de algumas companhias do Rio Grande do Sul. Orientador: CLÓVIS DIAS MASSA. Dissertação (Mestrado) –  Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Instituto de Artes, Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas, Porto Alegre, BR-RS, 2019.

ANEXOS:

Anexo 1 – Proposta Montagem e Encenação_Wonderland Ave._LEANDRO SILVA_TRANSIT 4ª Edição_FINAL

Anexo 2 – CHECK LIST DE PASSOS IMAGINADO PARA VISUALSCAPE E SOUNDSCAP_Wonderland Ave . Grupo 1 . Leandro Silva

Anexo 3 – Esquema ideias operatórias para a montagem de Wonderland Ave. por Leandro silva e equipe

NOTA 1: Isadora é um ambiente de programação gráfica proprietário para Mac OS X e Microsoft Windows, com ênfase na manipulação em tempo real de vídeo digital. Foi lançado em 2002. Possui suporte para Open Sound Control e MIDI. Isadora foi projetada por Mark Coniglio. oferece um ambiente de programação gráfica que possibilita o controle interativo sobre uma mídia digital. Isto é, com esse programa, você poderá manipular, interagir com um vídeo em tempo real. O aplicativo é especialmente interessante para artistas e educadores do mundo inteiro. Sua utilização é mais comum em apresentações de dança, espetáculos de teatro, instalações interativas, efeitos de vídeo para pós-produção, vídeos para ambientes (“VJs”) e em ambientes interativos de aprendizagem para deficientes.

NOTA 2: Enrico Pitozzi é professor da Universidade de Bolonha – Bolonha, Itália. Possui pesquisas e publicações nas áreas de corpo, presença e tecnologias.

Reabertas as inscrições! Oficina Teatro Percussivo – Projeto Comunicação e Arte: Uma Onda no Ar do Quilombo do Sopapo

76200543_2552408591507816_694658746210582528_o

Performance Festiva de Boneco Gigante e Rua “A Andarilha” (2019). Fotografia: Leandro Artur Anton

Comunicamos a reabertura de inscrições para interessados em participar da Oficina “Teatro Percussivo”, realizado pelo Ponto de Cultura Quilombo do Sopapo no âmbito do projeto “Comunicação e Arte: Uma Onda no Ar do Quilombo do Sopapo” (convênio com a Secretaria de Estado da Cultura).

A oficina tem como objetivo promover FORMAÇÃO de interessados em vista da construção da peça teatral “Um Sonho de Liberdade”, espetáculo percussivo com Tambores de Sopapo e Bonecos Gigantes, a ser estreado e apresentado no primeiro semestre de 2020.

A ação é coordenada por Beatriz Rosa, percussionista e contadora de histórias e a direção do espetáculo é de Leandro Silva, artista bonequeiro e diretor teatral, ambos educadores do ponto de cultura.

Para se inscrever, basta enviar nome completo e contato para o e-mail: quilombodosopapo@gmail.com

Programação dos próximos encontros:

• 25/01, das 14:30 às 16h – Oficina de manutenção de bonecos gigantes, com Edu Nascimento.
• 01/02, das 14:30 às 16h – Oficina de manutenção de bonecos gigantes, com Edu Nascimento.
• 08/02, das 14:30h às 16h – Argumento e dramaturgia do espetáculo “Um Sonho de Liberdade”, com Leandro Silva e Beatriz Rodrigues
• 15/02, das 14:30 às 16h – Argumento e dramaturgia do espetáculo “Um Sonho de Liberdade”, com Leandro Silva e Beatriz Rodrigues

Participe!
#QuilomboDoSopapoSempre

Evento FB: https://www.facebook.com/events/1454679201339844

A Oficina de Teatro Percussivo é uma atividade realizada através do projeto Comunicação e Arte: Uma Onda no Ar do Quilombo do Sopapo por meio de convênio com a Secretaria de Estado da Cultura e da luta comunitária pela Cultura Viva.

rodapé-site-comunicaçao-e-arte