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Diário de Bordo – Etapa 2

Período: Fevereiro e Março de 2020.

Este período foi de bastante trabalho para a nossa equipe de montagem e encenação da peça Wonderland Ave. pelo projeto TRANSIT. Nos revezamos entre ensaios no Instituto Goethe, preparação de elenco na Dalmeida Conteúdo Cultural com o José Renato Lopes, ensaios extras no Espaço CERCO Cultural e reuniões para pensar processos de criação e produção em vários locais, como a minha residencia e na sede do Coletivo Catarse.

Em resumo, as principais ações nesse bimestre foi especialmente sobre o texto, onde nos debruçamos para construir um melhor entendimento da peça, delinear cenas e tomar algumas decisões. Uma dessa culminou com a entrada do ator Paulo Roberto Farias na equipe, a nosso convite. A ideia já vinha sendo dialogada há um tempo na equipe, de convidá-lo e, além de seu perfil de artista agregador e que muito contribui coletivamente, deveu-se também a um entendimento do diretor sobre a peça, comungada com os demais membros da equipe desde as primeiras leituras da obra. A nossa ideia é deixar nítido que muitas pessoas estão “presas” na Wonderland Ave. e que todas passam por situações similares: treinam em busca do “prêmio”, falam de seu passado pessoal recente, do mundo, das transformações, de seus anseios e questões existenciais… Para nós, estava claro que a permanência de um só ator em cena não colaborava para construir esse entendimento e a entrada do Paulo no processo foi salutar para começarmos a construir isso.

Mudanças e delineamentos nos status e estados dos personagens

De pronto, firmei que os atores e a atriz pudessem, a partir das suas leituras dos textos e dos ensaios, estarem construindo um “Retrato Falado” de seus personagens e esse exercício foi se tornando cada vez mais interessante a cada ensaio. O retrato deveria englobar: aspectos físicos e emocionais, contextos dentro da própria peça e, a partir destes, uma biografia imaginada de suas vidas anteriores ao confinamento na Wonderland Ave.

Marco Marchessano e Paulo Roberto Farias (Pessoa 1 e Pessoa 2, respectivamente), de pronto, começaram a eleger características e elaborar um perfil e uma biografia para cada um de seus personagens, o que colaborou para a separação das falas e dos momentos solos e de encontro entre estes. A cada ensaio e debate, estes perfis foram se tornando cada vez mais nítidos e delineados. Por exemplo, é a Pessoa 1, e somente esta, que fala de sua relação com a mãe. E somente a Pessoa 2 relembra seus encontros amorosos em um passado recente. Do mesmo modo, somente a Pessoa 1 passou pelas cirurgias (mal sucedidas) de ressignificação sexual ao passo que a Pessoa 2 não somente não passou por essa realidade, como demonstra desprezo por esta.

Silvia  Serrano (Coro/ Avatar), no mesmo exercício, detecta vários estados emocionais das máquinas (fria, irônica, materna, furiosa) e percebe que as mesmas podem se relacionar de forma diferente com a Pessoas 1 e a Pessoa 2. Essa percepção deu mais dinamismo à construção da Silvia, no momento em que ela pode explorar estados e texturas diferentes na relação com os dois personagens.

No geral, trabalhamos com grande entrosamento com toda a equipe, mesmo que nem sempre reunidos em seu conjunto. Basicamente, constituímos dois núcleos de trabalho: um comigo e os elenco, para ensaios e criação; outro comigo e um núcleo mais técnico, formado por mim, Billy Valdez, Paulinho (que também se soma a equipe nesta etapa) e José Renato para pensar aspectos tecnológicos, como visualscape, soundscape, iluminação, projeção e outros recursos que compõe medularmente a peça.

Houve, claro, momentos de inseguranças, dúvidas, medos, desequilíbrios emocionais, que cuidamos em equipe, em rodas de diálogo, cumplicidade e, acima de tudo, com liberdade para decisões entre permanecer no processo, dele sair ou se se realocar. Certamente a pressão do prazo de entrega obra, a quantidade de processos diferentes em torno de um mesmo trabalho e a grandeza do projeto Transit geram uma pressão, especialmente para a Silvia, que estreia seu trabalho como atriz, mesmo sendo uma atuação peculiar, esta que estamos chamando de “atuação avatar” e sobre a qual pretendo me debruçar em escritas futuras. Estamos tentando gerenciar de forma coletiva essa pressão e manter os olhos na beleza daquilo que estamos construindo, passo a passo. A estreia é resultado.

Por mais que eu, como diretor, tenha um projeto muito nítido e objetivo da montagem, acredito que, dentro deste projeto, dessa moldura que ele representa, devemos construir a peça da forma mais colaborativa e afetivamente possível. Neste sentido, todos da equipe tem participado muito ativamente de proposições de cenas, ações, gestos, recursos e ideias rumo à elaboração da obra que será posta em cena em maio. Me vejo mais como alguém que está atento a manter este fluxo de contribuições na direção do projeto de encenação e montagem, de organizá-lo e, claro, eventualmente fazer a tarefa chata de agradecer e descartar alguma contribuição que nitidamente é anacrônica à proposta. Mas, o mais importante, a meu ver, é manter esse espaço de liberdade, escuta, para que todos, especialmente os atores e a atriz, possam se sentir à vontade para trazer suas contribuições. E tê-las consideradas e valorizadas, mesmo que eventualmente tais contribuições não fiquem no formato final do trabalho.

Um dispositivo cênico-poético-tecnológico

Na nossa proposta de montagem e encenação para Wonderland Ave., as tecnologias estão para muito além de um mero recurso, mas como uma poética compositiva da cena como um todo. Por mais que a ênfase nesse período tenha sido de “dissecar” o texto e até repensá-lo com a participação especialmente do elenco, houve um esforço para irmos ao mesmo tempo trazendo à baila a criação dos recursos audiovisuais que a peça necessita para se sustentar e construir as primeiras peças de cenografia.

De pronto, conseguimos criar a base do cenário, que é algo bastante simples: uma armação de metalon e articulações de ferro, que formam grades que, por sua vez, servirão como telas para as projeções.

Mesmo que as peças tenham vindo com algumas imperfeições e necessidades de ajustes (como folgas entre as peças e as articulações), a montagem e utilização parcial da cenografia foi importante para a elaboração das cenas, uma vez que estas não são meros recursos cenográficos, mas formam um dispositivo, que concretiza a própria ideia da Wonderland Ave. São nelas que os personagens se localizam espacialmente (se dentro de seus módulos, se no banho, se na área externa do condomínio) e é somente nela que o Coro/Avatar pode ter um “corpo”, uma vez que funcionam como telas onde o avatar é projetado e corporificado, fazendo de toda essa estrutura um espaço imerso, um “prato cheio” para o trabalho da atriz e dos atores.

Não chegamos a utilizar as membranas, a serem feitas com tule ilusione. Este é um material muito interessante pois, ao mesmo tempo em que oferece uma superfície sólida para as projeções, permite uma translucidez, uma transparência, que permitirá aos atores explorarem seus corpos físicos em interação (sobreposição, mescla) com o corpo digital do avatar (imagem projetada em tempo real da atriz).

Por fim, tivemos muitos encontros no Coletivo Catarse para pensar estes processos tecnológicos. Billy passou a investigar o uso de um outro software, o Resolume, como uma segunda opção ao Isadora, cuja versão que tínhamos apresentava alguns problemas e instabilidades em uso. Qual deles utilizaremos, ou se os combinaremos, ainda não está decidido.

Também adentrou à equipe o Paulinho, para contribuir conosco possibilidades de uso de músicas e paisagens sonoras criadas ao vivo, em tempo real, para e na peça. Uma contribuição autoral muito interessante e visualmente muito potente, uma vez que a proposta do Paulinho é estar fazendo isso também à mostra do público, fazendo uso de computador e sintetizadores.

José Renato Lopes já assistiu dois ensaios e começou a juntar as primeiras ideias para o plano de luz. E nesse período, contamos com a visita de cada um dos provocadores críticos artísticos, que trouxeram contribuições diferentes ao processo (trataremos disso em outro post e de forma sucinta, uma vez que o processo estará analisado e publicado por eles no site AGORA Crítica Teatral). De pronto, cada diretor desta edição do TRANSIT, eu e Julia Rodrigues, já concedemos entrevistas ao site AGORA, que em breve serão publicadas, juntamente com uma entrevista solicitada à autora da peça, a dramaturga alemã Sibylle Berg.

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Também adentrou ao trabalho a contribuição de amigos e amigas de coletivos artísticos, de cuja participação também tratarei com mais atenção em um próximo post. Tratam-se de Leandro Artur Anton, do Coletivo Imagens Faladas, que produziu a fotografia para o catálogo do 15º Palco Giratório, em cuja programação a peça estreará; de Marion Santos e Julia Santos, mãe e filha, membras do  Grupo Fuzuê Teatro de Animação que irão se somar para pensar o figurino e a maquiagem da peça e, por fim, convidei a Caroline Faleiro (ex-Grupo Trilho e hoje morando em São Paulo) para emprestar sua voz, juntamente com Marion e Julia, para um efeito sonoro de um dos vídeos que comporão a peça.

Próximos passos…

Minha maior expectativa é começar a realizar ensaios gerais o mais rapidamente possível, com a maior quantidade possível dos recursos tecnológicos da peça já disponíveis e em interação.

Reitero que minha proposta é de que as poéticas tecnológicas neste trabalho de fato não funcionem como meros recursos, mas que se constituam como elementos compositivos da cena. Não podem cair nem numa espécie de virtuosismo, um espetáculo da parafernália, nem ter sua potência reduzida a meras “perfumarias” da cena. Modular tudo, estabelecer a intensidade de cada recurso, integrar aos trabalho da atriz e dos atores e buscar um ponto de equilíbrio é basilar. E isso só consigo visualizar através de ensaios, muitos ensaios, com todos os elementos na arena da cena, os de “carne” e os de silício. Aqui reitero minha posição de que é o elemento humano, o “nós” quem somos os grandes catalizadores das poéticas tecnológicas, mesmo que em larga medida elas venham a decidir as coisas e estabelecer limites novos e arriscados para nossa presença. Mas essa proposta ainda é sobre pessoas e não sobre chips e softwares.

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SINOPSE DA PEÇA

“As vezes máquinas superiores nos perguntam: porque vocês os torturam desta maneira antes de lhes conceder o estado que eles merecem? E nós respondemos: porque nós podemos” (Sibylle Berg).

Na montagem proposta pelo diretor Leandro Silva e sua equipe para Wonderland Ave. da dramaturga alemã Sibylle Berg, a visão de um mundo distópico, pós-apocaliptico cibernético e governado pela presença onisciente das Inteligências Artificiais (I.A.). O espetáculo é um dispositivo cênico onde poéticas tecnológicas, atriz avatar e ator biocibernético nos inquietam sobre a imbricação cada vez mais profunda das tecnologias nas nossas carnes, vidas sociais e democracias. Uma “matrix”, onde corporeidades físicas e digitais se encontram e se confundem. Quanto de liberdade ainda nos restará em um futuro próximo, quando as inteligências artificiais determinarem todas as áreas de nossas vidas? O espetáculo integra a 4ª edição do projeto TRANSIT, idealizado pelo Goethe Institut e realizado em parceria com o SESC e o site AGORA Crítica Teatral. O projeto selecionou dois diretores para a montagem do mesmo texto de Sibylle Berg.

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FICHA TÉCNICA [ATUALIZADA]

Texto: Sibylle Berg, com tradução de Luciana Dabdab Waquil

Direção: Leandro Silva

Elenco: Silvia Serrano, Marco Marchessano e Paulo Roberto Farias

Participação Especial/ Vozes: Marion Santos e Julia Santos (Grupo Fuzuê Teatro de Animação) e Caroline Falero

Iluminação e Preparação de Elenco: José Renato Lopes

Projeto Visual: Silvia Serrano e Leandro Silva

Cenografia: Silvia Serrano

Operação de Vídeo, Som e Edição em Tempo Real: Billy Valdez (Coletivo Catarse)

Figurino: Marion Santos

Maquiagem: Julia Santos

Fotografia: Leandro Anton (Coletivo Imagens Faladas)

Provocadores Críticos Artísticos: Michele Rolim e Henrique Seidel (AGORA Crítica Teatral)

ESTREIA:

Data: 21 e 22 de maio de 2020, quinta e sexta.

Local: Instituto Goethe, Porto Alegre, RS.

Horário: 20h

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