Durante o período de isolamento social, a equipe de montagem e encenação da peça Wonderland Ave. com direção de Leandro Silva e selecionado para o projeto TRANSIT, promovido pelo Instituto Goethe em parceria com o SESC RS e site AGORA Crítica Teatral, se manteve em contato pela internet para conversar e discutir o presente e o futuro do trabalho.

Nesta postagem, mantemos um registro com a síntese dos diálogos, inquietações e referencias trocadas ao longo do isolamento social pela equipe.

Reunião Virtual do dia 07 de maio de 2020, através do Messenger/ Facebook

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Equipe em Videoconferência de 07/05/2020: diálogos em Transit!

Foi nosso primeiro momento de “encontro” virtual, para além dos diálogos que fazemos no nosso grupo de WhatsApp. Ficamos muito felizes pelo encontro, por se ver mesmo que virtualmente e, inicialmente, poder dialogar sobre como estamos agora no contexto do isolamento social.

No geral, todos da equipe estão em suas casas, com suas famílias e se cuidando. O momento para nós é de forte apreensão, incertezas, medo e desânimo por conta do contexto da pandemia que, neste momento no Brasil, vai beirando a marca de quase 10 mil mortos. A isso, se soma as posturas do governo brasileiro, afundado em negacionismo e incapaz tanto em fazer uma articulação nacional para enfrentamento da pandemia, quanto de promover ações concretas de socorro à população diretamente mais impactada por esta.

Nesse contexto, é preocupante o impacto da pandemia para os trabalhadores da Cultura, situação que nos atravessa diretamente. No geral, todos da equipe ficamos sem trabalho, alguns conseguiram o auxílio emergencial oferecido pelo governo e outros seguem tentando fazer alguns trabalhos como freelancer, em regime de home-office. O prolongamento da pandemia e do isolamento social vai cada vez mais dificultando a sobrevivência financeira dos trabalhadores da Cultura. A nossa sobrevivência. E lidar com isso é desgastante.

Outra questão que a equipe refletiu é a pós-pandemia e o que significará efetivamente “voltar à normalidade” depois. Acreditamos que não haverá uma normalidade como um estado anterior a esta situação em que nos encontramos. A pandemia deixará marcas sociais profundas e duradouras, que certamente irá impactar especialmente o Teatro, uma arte essencialmente da presença, da aglomeração, do acontecimento e do encontro. Acreditamos tanto que esse retorno aos encontros poderá ser bem tardio,  de maneira muito progressiva, quanto na possibilidade de vivermos situações novas, novos hábitos e restrições que obrigarão os trabalhadores e trabalhadoras do teatro a se repensarem.

Quanto ao nosso trabalho em específico, o texto Wonderland Ave. se tornou assustadoramente atual, profético e ainda mais essencial. E precisa ir à cena! É um texto urgente.

No que diz respeito ao projeto de montagem do trabalho pela nossa equipe, calcado nas poéticas tecnológicas, é importante frisar algumas coisas:

– No nosso projeto de montagem, a tecnologia é colocada como uma ferramenta de composição cênica, para a constituição de uma arena ou dispositivo cênico tecnológico que imporia à equipe e à plateia novas possibilidades de interação, jogos e riscos. E tudo para ser feito diante do espectador. Estava fora da concepção do projeto (“e continua estando”, conforme o diretor Leandro Silva) qualquer uso da tecnologia como um dispositivo de mediação do contato do espectador com a peça. Logo, o fato de termos a presença das poéticas tecnológicas em nosso trabalho de montagem de “Wonderland Ave.”, não resolve de imediato a questão de um novo formato para a obra solucionada por via destas.

– Também acreditamos que devemos olhar de forma mais crítica o uso de “lives” e a tentativa de querer fazer desse formato um substituto para as apresentações teatrais. É preciso pensar num uso próprio, com formato e tecnologias próprias que tente em alguma medida levar de fato a obra e os seus contextos para o espectador. Simplesmente colocar uma câmera em plano aberta transmitida pela internet não nos parece nem de longe o modo mais adequado para o teatro, mesmo nesta atual fase do isolamento social.

– Ao nosso ver, as lives não respondem às necessidades do teatro, sob nenhum aspecto: nem estético, nem social, nem de cunho econômico. Como sustentar o teatro dessa forma?

– As “lives” talvez se prestem melhor às atividades formativas e debates, como o que já estava previsto para a programação do TRANSIT e que esperamos possa trazer agora na sua centralidade o tema das práticas teatrais no contexto da pandemia global. Esse nos parece ser o “grande tema”, a questão deste ano.

– Talvez fosse o caso de pensar formatos mais “honestos”, como do teatro previamente gravado, filmado e depois tratado com uma pós-produção utilizando os recursos do cinema e do vídeo (e não do teatro, nesta etapa). Como exemplos de trabalhos assim, Leandro Silva citou os trabalhos em vídeo da obra teatral de Philippe Genty (antes da pandemia) e Paulo Roberto Farias citou a recente apresentação da cantora e compositora Simone Rasslan no âmbito do projeto Mistura Fina. Ambos são trabalhos com interlocução entre a apresentação do/os artistas e uma produção e pós-produção de cunho audiovisual.

– Tais formatos, se acolhidos, implicariam num redesenho dos projetos selecionados para o TRANSIT IV e o adentramento de profissionais do cinema e/ou vídeo na ficha técnica, trabalhando lado a lado com o diretor teatral. O que implica em reabrir então a discussão sobre os projetos e refazer seus desenhos e até as fichas técnicas. No nosso caso em particular, é um ganho poder contar na nossa equipe com o Coletivo Catarse de audiovisual e a presença de profissionais de áreas muito distintas na equipe. O que antes era um desafio, agora pode ser uma grande oportunidade para o futuro do trabalho. Também nos colocamos abertos a firmar parcerias de interesse do outro grupo selecionado, da colega Julia Rodrigues, em vista de contribuir com eventuais soluções para demandas de tecnologias para a realização de nossos trabalhos. Buscamos juntos um formato, uma saída que contemple os dois trabalhos, sem perder de vista as peculiaridades de cada um.

ENCAMINHAMENTOS DA REUNIÃO

– Pensamos que, neste momento, o que devemos fazer é seguir se encontrando virtualmente, na medida do possível tentar relaxar e viver o que está acontecendo. E nos apoiarmos mutuamente.

– A incerteza do momento não nos permite pensar a fundo e decidir um formato alternativo para nossa montagem, caso essa situação da pandemia perdure. Mas apenas ir pensando sobre isso e idealizando as perspectivas. No entanto, entendemos que será fundamental a participação das equipes dos projetos – diretores, elencos, técnicos – protagonizando esse debate ao lado do Instituto Goethe, dos provocadores criticos artísticos e demais parceiros.

– A nossa perspectiva hoje (07/05/2020) é que esperemos isso tudo passar, avaliemos as restrições impostas no pós-pandemia e retomemos os projetos com nova agenda de ensaios, apresentações e o debate. Nessa retomada, será importante considerar que muitos dos processos terão que ser refeitos e sequer poderemos contar com a composição das equipes atuais num futuro pós-pandemia. Tudo terá que ser repensando e em alguma medida, refeito.

– Por fim, achamos fundamental ampliar esse debate com as equipes, os parceiros, provocadores, todos os envolvidos. Talvez seja o caso de se promover alguns encontros com as equipes com este tema, o desafio do fazer teatral em tempos de pandemia, já como uma atividade do projeto Transit para esta quarta edição, para não se perder o protagonismo dessa discussão e neste momento.

REFERENCIAS CITADAS NOS NOSSOS DEBATES  E CONVERSAS DE WHATSAPP:

Linha do tempo do Coronavírus no Brasil. Disponível em: https://www.sanarmed.com/linha-do-tempo-do-coronavirus-no-brasil

Lands End – Full LIVE, de Philippe Genty. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=LqUc5Skf-ho

Projeto Mistura Fina – Música para Fugir do Trânsito: https://www.facebook.com/misturafinamusica/

Projeto Vozes da Quarentena (Instituto Goethe Porto Alegre): https://www.goethe.de/ins/br/pt/sta/poa/vq1.html

Por que as videoconferências nos esgotam psicologicamente?, por José Mendiola Zuriarrain para o EL PAÍS, em 06 de maio de 2020. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2020-05-06/por-que-as-videoconferencias-nos-esgotam-psicologicamente.html?utm_source=Facebook&ssm=FB_BR_CM#Echobox=1588780809

 

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